terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
O Núcleo Residencial da Vale e Buriticupu - MA
Perplexos, os diretores da CVRD estranharam aquela inesperada atitude e lamentaram, dizendo: “Foi rejeitado um projeto que em todos os aspectos traria bons resultados para o povoado”. Na semana seguinte, durante uma conversa na Fazenda Verona entre engenheiros da CVRD e Jocélio, gerente da fazenda, foi tocado o assunto da cessão do terreno. Os engenheiros diziam não ter conseguido o terreno para a construção do residencial; o gerente perguntou, então, se a Fazenda Verona seria um local viável para aquele projeto. Após um rápido reconhecimento da área, constatou-se que sim, a área era viável para a construção do complexo residencial. Bastou apenas um telefonema para o proprietário da fazenda, o empresário e pecuarista Chico Rico, e tudo resolvido: ele doou 10ha de terra à CVRD.
O conjunto residencial é hoje uma realidade, um rico patrimônio construído no vizinho município de Bom Jesus das Selvas. É formado por bonitas residências, quadra de esporte, escola, posto telefônico e todas as ruas calçadas e arborizadas. Buriticupu ficou apenas com o prejuízo.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
DNIT está reformando BR-222 e custará R$ 250 milhões
As obras na rodovia abrangem os município de Santa Luzia do Tide, Buriticupu e Bom de Jesus das Selvas.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), está em obras de reforma e readequação da BR-222, a qual cruza Ceará, Pará, Piauí e Maranhão. O trecho no qual ocorrerão obras na rodovia – por vezes chamada de “rodovia da morte”, tal é o número de acidentes que nela têm lugar –, todavia, circunscreve-se apenas ao território maranhense: do município de Santa Luzia do Tide até 10 quilômetros após o município de Bom de Jesus das Selvas.
As obras terão três objetivos: diminuir o raio (tornar mais amenas) ou mesmo eliminar determinadas curvas mais bruscas, as quais abundam em tal trecho da BR-222; criar uma terceira faixa, à esquerda, em trechos de aclive, para que nela trafeguem veículos de carga, a fim de deixar mais livres as outras duas faixas para demais veículos; e restauração de todo ao asfaltamento do trecho, o qual não há não é reposto há 20 anos, nesse período tendo passado apenas por manutenções pontuais.
Não fosse o mero objetivo de otimização da pista, haveria ainda a necessidade premente de tais obras em razão do número de acidentes de trânsito que nela se dão. Só ao longo de 2009, a Polícia Rodoviária Federal registrou 287 acidentes. Desses, 201 tiveram ferimentos leves, 123 tiveram ferimentos graves e 68 morreram. A razão comumente apontada para tais índices elevados de acidentes com vítimas é a presença excessiva de curvas muito acentuadas ao longo da rodovia.
Segundo o chefe de engenharia do DNIT (seccional Maranhão), Leônidas Caldas, a licitação da obra já foi feito em Brasília (dois consórcios de empresas ficaram responsáveis por ela), o orçamento já foi aprovado, faltando somente ser homologada, de modo que ainda se inicie este ano, com previsão de término em 2012.
"Este trecho da BR-222 tem muitas curvas com o raio fora do padrão [do DNIT], o que representa riscos para o motorista. Esta é, então, uma obra que aproveitará essas correções para renovar o asfaltamento da rodovia e criar terceiras faixas para diminuir o risco de acidentes durante ultrapassagens", explica Leônidas Caldas.
O chefe de engenharia do DNIT afirma também que tais reformas não irão prejudicar o tráfego na BR-222 enquanto estiverem em andamento, e que essas mudanças em nada alterarão a extensão da rodovia.
terça-feira, 20 de abril de 2010
BURITICUPU – MA, Um passeio na sua história.
Viajando pela estrada de ferro Carajás tive a oportunidade de encontrar um grande amigo que durante a viagem de São Luis a Açailândia me emprestou um livro muito interessante de Isaias Neres Aguiar com o título de “BURITICUPU – Sua História e Suas Características... O Maranhão e o projeto pioneiro de colonização”, um título histórico e sócio-cultural muito importante para aqueles que gostam de aprender um pouco de nossa história e nossa gente.
No início o autor fala sobre os primeiros habitantes que não poderia deixar de ser os índios. Os guajajaras foram levados no ano de 1941 pelo extinto SPI (Serviço de Proteção ao Índio) e habitaram à beira do Rio Zutiua. O que a população não sabia até então é que a região já era habitada a muito tempo pelos índios das tribos Guajá e Tupi-guarani, que haviam fugidos do litoral maranhense à aproximadamente 350 anos. São índios primitivos que até hoje moram nas matas de Buriticupu e não tem contato algum com brancos, sobrevivem sobretudo da caça e da pesca, coletam frutos, plantas e mel silvestres e segundo os historiadores não tem hábito de fumar e, ainda mudam-se freqüentemente de lugar em busca de alimentos, geralmente em beiras de rios da região e já foram vistos algumas vezes por caçadores e pôr índios guajajaras, sendo que geralmente se mudam para não ter contato com estranhos. Um fato que me chamou atenção é que os índios guajajaras também temem os primitivos e se afastam com medo de conflitos entre ambas as tribos.
O fator predominantemente importante para a criação e colonização da região foi a criação da COMARCO (Companhia Maranhense de Colonização) que foi criada em 6 de dezembro de 1971 pelo então governador Pedro Neiva de Santana. No início estudos indicaram que aquela área era bastante propícia para a prática da agricultura e pecuária. Estabelecida a área para a colonização o governo do estado tratou de abrir a estrada MA-74 que mais tarde passou para o governo federal e foi registrada como BR-222. Em 1972 começou a ser discutido o nome do povoado a ser criado e os engenheiros da COMARCO descobriram que próximo ao rio conhecido por Barra da Jurema existiam bastante palmeiras de buriti e nas matas da região eram abundantes as árvores de cupu, foi só juntas os dois nomes e chegaram ao nome de BURITICUPU.
O primeiro administrador do povoado foi escolhido pelo governador com o apoio da COMARCO e se chamava Boileau Dantas Vanderley Filho. Logo após a sua chegada ele providenciou a construção das primeiras casas da região que foram erguidas com palhas de anajá. Em 1973 o governo do estado começou a cadastrar agricultores que queriam habitar a região para desenvolver a agricultura familiar e logo chegaram as primeiras mudanças. Um fato que é importante mencionar é que boa parte destas mudanças foram feitas pelo caminhoneiro Antonio José de Assis Braide onde o mesmo é hoje a figura política mais importante da região do Pindaré, onde já foi prefeito diversas vezes, elege sempre sua esposa Janice Braide e, até os dias atuais, elege todos os prefeitos da cidade de Santa Luzia do Tide.
O projeto de colonização ficou praticamente paralisado no governo de Nunes Freire que apenas inaugurou obras do governo anterior e cometeu diversos abusos, um deles foi à inauguração do hospital da colônia onde o mesmo em alto e bom tom falou para autoridades presente que “Não havia nenhuma necessidade de se construir um hospital tão grande dentro do mato”. Nesta época foi implantada a primeira delegacia de polícia de Buriticupu onde foi designado o Major Carlos Alberto Barateiro da Costa que era conhecido como “Major Bebeto” onde, devido o seu grande trabalho junto a comunidade foi para a cidade de Imperatriz-MA para assumir o cargo de interventor municipal. Logo depois foi nomeado para o cargo de delegado o Sargento Luis monteiro de Sousa, conhecido como sargento Furrupa que só era falado na sua ausência. Furrupa ficou conhecido em todo o Maranhão devido o seu jeito de trabalho que mandava espancar os presos, mandava matar e se achava o dono do povoado. Só que no seu caminho apareceu um senhor Antônio, 25 anos, conhecido como Fogoió que não tinha medo de nada e pôr diversas vezes desafiou o sargento Furrupa e seus oito homens para brigar, chegando a sacar sua peixeira e chamar todos de covarde. Fogoió foi preso diversas vezes e amarrado de cabeça para baixo, pois toda vez que era preso ele não passava nem duas horas preso e conseguia fugir.
O último problema entre o Sargento Furrupa e o Fogoió o mesmo foi espancado e algemado pé e mão, colocado em uma cela de cabeça para baixo e todo ensangüentado conseguiu fugir na mesma noite da delegacia, onde só tinha um policial de plantão. O sargento foi avisado na mesma noite e, sem querer acreditar, falou em meio a multidão que Fogoió só poderia ter pacto com o diabo, logo após sua fuga o mesmo nunca mais foi visto na região.
No dia 15 de março de 1979 acaba a era Nunes Freire e o projeto de colonização é reiniciado logo depois no Governo de João Castelo. Buriticupu. Voltou a crescer com a inauguração de escolas, abastecimento de água, açudes e distribuição de casas e terras para novos colonos habitarem a região. Em 1982 surge o primeiro político da história de Buriticupu, foi a lacrador Francisco Gomes Pinheiro, Chico Mudança, que foi eleito vereador do povoado no município de Santa Luzia do Tide que era o município antes do desmembramento.
Em 1983 acaba o grande governo de João Castelo e surge o governo de Luís Rocha onde o projeto de ocupação sofreria mais uma parada no andamento dos projetos. Só nesta época a extração de madeira, a agricultura e a pecuária já estava no auge e o povoado sofria um crescimento assustador com uma população aumentando a todo instante onde surgiu a feira do Chega-mais em 1984 que até hoje fica à margem esquerda da BR-222 e no início os administradores do povoado queriam tirar e os comerciantes só não saíram do local devido a intervenção do deputado Davi Alves Silvam onde o trecho da rodovia foi batizado de Avenida Davi Alves Silva.
Um lado lamentável para o progresso de Buriticupu foi quando a Companhia Vale do Rio Doce pediu para os administradores do povoado uma área para ser construído um conjunto funcional dotado de quadras poliesportivas, casas, centro educacional e, como contrapartida a empresa iria construir colégios, desenvolver projetos sócio-educativo-cultural e aproveitar uma grande quantidade de mão-de-obra local para ser treinados e empregados na própria CVRD; o pedido foi de imediato negado pelos administradores da colônia e até então, em uma conversa informal com um gerente da Fazenda Verona localizada
Após um longo período de colonização Buriticupu toma um novo rumo em meados de 1987 onde, o lavrador chamado Luis Soares Filho, o Vila Nova, com o apoio do Partido dos Trabalhadores e do Movimento dos Sem Terra, organiza os lavradores e começa uma verdadeira luta armada entre os colonos e os latifundiários que se protegiam com jagunços e tinham o apoio informal de políticos, policiais e pistoleiros da região. Um fato importante a ser citado foi a invasão da Fazendo terra Bela de propriedade do pecuarista Fernando Brasileiro onde lavradores armaram uma emboscada e mataram duas pessoas e feriu o gerente da fazendo. O pistoleiro Agenor também sofreu uma emboscada e foi encontrado às margens da BR-222 com quatro tiros, sinais de tortura, olhos furados, castrado e a cabeça esmagada por pauladas.
Em 1990 Buriticupu já é o maior povoado do Maranhão e juntamente com ele aparece o então lavrador Vila Nova como uma figura política de oposição onde começou sua vida pública coordenando o Movimento de Animação Cristã no Meio Rural, depois dirigiu por 9 anos o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e a Federação Estadual dos Trabalhadores Rurais de seu estado. Já no Maranhão criou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Esperantinópolis. Em 1982 tentou conciliar o trabalho com a política e em Imperatriz se candidatou a deputado estadual pelo PT, porém não foi eleito mais ganhou o apelido de Vila Nova porque morava naquele bairro da cidade. Em 1983 muda-se para Buriticupu onde fundou a Associação Cantareira e logo depois foi eleito presidente do diretório estadual do PT. Em 1985 tentou sem sucesso elerger-se prefeito de São Luis e um ano depois novamente perde a eleição para deputado estadual. Em 1988 foi candidato de oposição para a prefeitura de Santa Luzia do Tide e, apesar de ganhar em Buriticupu, perdeu na somatória geral dos votos. Contra Vila Nova pesa várias acusações como formação de grupo armado, comando da violência no campo, assassinato de fazendeiros e pistoleiros e depois de muitas acusações e ameaças de morte ele já vivia com pouca aparição
Em 1990 chega o Banco do Estado do Maranhão e um ano depois o Banco do Brasil. Nesse período já estava no auge o comércio em uma esquina conhecida como Pé-de-amêndoa que hoje é um dos principais pontos comercial daquele município. Em 1991 começa o sonho de emancipação política do maior povoado do Maranhão. Antes disso o primeiro requerimento pedindo tal feito foi encaminhado pelo deputado Yedo Flamarion Lobão à mesa da Assembléia Legislativa do estado do Maranhão no ano de 1983. Em 1991 o Tribunal Regional Eleitoral pede ao cartório eleitoral de Santa Luzia do Tide um levantamento da população do povoado que foi divulgado dia 23 de janeiro de 1992 com um total de 7.733 eleitores. Em 01 de outubro de 1993 os deputados Carlos Braide e Oséas Rodrigues entram com um requerimento na Assembléia que pela resolução legislativa N. 238/93 autoriza o TER a fazer o tão sonhado plebiscito para a criação do município de Buriticupu.
Um ano depois o atual presidente da república Luis Inácio Lula da Silva faz comício no dia 16 de abril de 1994 em campanha para presidente. O plebiscito eleitoral foi realizado dia 19 de junho de 1994 e 6.034 eleitores votaram sim, 86 votaram não, 65 votaram em branco, 44 anularam o voto em um total de 6.229 votantes. Depois do resultado positivo do plebiscito eleitoral surge a lei n. 6.162 de 10 de novembro de 1994 que criava o município de Buriticupu.
Os limites territoriais do Município são com: Santa Luzia do Tide, Arame, Amarante do Maranhão e com Bom Jardim.
Logo após a criação do município quase nada mudou e para mostrar que realmente queria descentralizar a administração, o prefeito de Santa Luzia do Tide Antônio Braide nomeou Simar Pereira Pinto para administrar o povoado e fiou até a sua morte em 29 de setembro de 1995 onde assumiu a administração o jovem Gildan Medeiros que ficou até a data da eleição de 1996. Para prefeito foram cinco os candidatos e 69 para as nove vagas para vereador municipal.
Os dois candidatos propícios a vencer a primeira eleição municipal de Buriticupu era o atual administrador Gildan de apenas 25 anos de idade e apoiado pelo maior chefe político da região Antonio Braide e, o outro era o maquiavélico político Raimundo Araújo, ex-vereador e apoiado por dois chefes da política e pistolagem no estado que eram os Deputados Davi Alves Silva e o deputado José Gerardo de Abreu. Com um discurso inflamado o candidato Raimundo Araújo chamava seu principal adversário de menino e o Gildan usava o discurso do adversário como principal arma para garantir a eleição. Ele costumava falar durante seus aplaudidos discursos que “Tenham-me os jovens como seu irmão, os pais como seu filho caçula e os vovôs como seu neto querido”. Em 03 de outubro de 1996 o candidato da coligação governando com o povo PRP/PTS, Antonio Gildan Medeiros, foi eleito com 2.776 votos o primeiro prefeito municipal da cidade de Buriticupu. A posse do prefeito e vereadores eleitos foi dia 01 de janeiro de 1997 em uma solenidade realizada na escola municipal Pe. Edmilson de Sousa Freire no bairro Terra Bela, onde diversas autoridades estiveram presentes.
Hoje Buriticupu conta com 20.839 habitantes, onde quase metade dos moradores mora na zona rural. Ele está situado na microrregião de Pindaré, na parte oeste do Maranhão e possui uma área de 2.731 km2 e fica a
(estrada do Arame). Os visitantes podem chegar também por meio aéreo através do aeroporto municipal, estrada de ferro Carajás e os moradores ribeirinho utilizam em pequena escala os rios da região para se deslocarem.
E com tanta riqueza de conhecimento que gostaria que os bons leitores culturais tivesse também a oportunidade de ler esta importante publicação de Isaias Neres Aguiar, um maranhense de Olho d’Água das Cunhãs que em 1994 chega com sua família em Buriticupu e deixa o seu nome escrito na história e na cultura do povoado daquela cidade.
São Luís - MA 01 de setembro de 2003.
JORNAL PEQUENO, página 8
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Se tudo fosse flores...
Se tudo fosse flores
tu desfilarias com teus pés entre margaridas todos os dias
e choveria pétalas de rosas por sobre teus cabelos
perfumando e acariciando tua pele
se tudo fosse flores
passaríamos os dias entre engarrafamentos de beija-flores
que voariam em volta de nós
beijando flores beijando
e as árvores seriam multicoloridas
vida ainda mais além do verde
vida nas tulipas
com que eu te presentearia diariamente
vida nas rosas e begônias
matar a sede com copos-de-leite
descansar abraçados entre os boganvilles
correr e brincar entre as flores do campo
brincar e abraçar e beijar
e ao final do dia
final de todo dia
eu chegaria em casa
sorrateiramente
te surpreenderia largada
nua sobre a cama
à minha espera
assim tão bela tentação
para oferecer a ti
eternas semprevivas.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
A PROVÍNCIA DO MARANHÃO ENTRE 1838 - 1841
Entre os anos de 1838 e 1841, a Província do Maranhão foi abalada por vários levantes que atingiram também a vizinha Província do Piauí. Esses levantes receberam o nome geral de Balaiada porque um dos seus líderes, Manuel Francisco dos Anjos, fabricante e vendedor de balaios, era conhecido pelo apelido de "Balaio ".
Na época, a população total do Maranhão era de aproximadamente 200 mil habitantes, dos quais 90 mil eram escravos, além de uma grande massa de trabalhadores formada por sertanejos ligados à atividade pastoril e à lavoura. Nesse momento, o Maranhão enfrentava a crise da economia algodoeira.
Após a Guerra da Independência dos Estados Unidos da América, o algodão, principal produto de exportação da Província, passou a sofrer a concorrência do algodão norte-americano que voltara a dominar o mercado internacional.
Na Província do Maranhão, como na do Grão-Pará, o reconhecimento da Independência não se fizera de modo pacífico. Ao contrário, provocara conflitos entre colonos e portugueses, possibilitando que a massa de trabalhadores, formada pelas camadas mais pobres da população, pegasse em armas nas lutas então travadas. No entanto, apesar da Independência, a realidade dessas massas não se modificara. Continuavam marginalizadas e afastadas do poder político e econômico.
A REVOLTA DOS BALAIOS
Durante o Período Regencial a situação continuou tensa. A política da Província era marcada por disputas entre os bem-te-vis, que se opunham aos governistas, chamados pejorativamente de cabanos. A Balaiada começou a partir dos choques entre esses dois grupos, mas em pouco tempo ganhou autonomia, tornando-se um movimento das massas sertanejas.
Segundo Caio Prado Júnior, "na origem deste levante, vamos encontrar as mesmas causas que indicamos para as demais insurreições da época: a luta das classes médias, especialmente urbana, contra a política aristocrática e oligárquica das classes abastadas, grandes proprietários rurais, senhores de engenho e fazendeiros, que se implantara no país."
O grupo bem-te-vi, nome tirado do jornal O Bem-te-vi, representava a população urbana que se opunha aos abusos dos proprietários de terras e aos comerciantes portugueses. Os conflitos entre bem-te-vis e cabanos agravaram-se após a votação da chamada "lei dos prefeitos", .pela qual os governantes locais, os prefeitos, passaram a ter poderes imensos, inclusive o de autoridade policial.
Os cabanos, que estavam no poder, conseguiram maior controle da Província, nomeando seus partidários para o cargo de prefeitos, o que redundou em perseguição aberta aos bem-te-vis.
No Maranhão a insatisfação social era grande. Negros e mestiços constituíam a maior parte da população. Como aponta o historiador Arthur César Ferreira Reis, "Milhares de negros que fugiam aos maltratos dos senhores aquilombavam-se nas matas, de onde saíam para surtidas rápidas e violentas sobre propriedades agrárias." O movimento logo escapou do controle das camadas dominantes, transformando-se num levante dos setores mais humildes da Província.
O fato que costuma marcar o início da revolta ocorreu em dezembro de 1838, quando o vaqueiro Raimundo Gomes, um mestiço, conhecido como Cara Preta, passava pela Vila da Manga, levando uma boiada de seu patrão para vender em outro local. Na ocasião muitos dos homens que o acompanhavam foram recrutados e seu irmão aprisionado sob a acusação de assassinato.
O recrutamento obrigatório, uma das armas de que o Governo dispunha para controlar a população, sempre foi muito impopular, visto que recaía basicamente sobre os menos favorecidos, obrigados a qualquer momento a servir nas forças policiais ou militares. Raimundo invadiu a cadeia libertando não só seu irmão como os outros presos. A guarda não reagiu. Ao contrário, aderiu.
A greve de 1951: O povo contra as fraudes
A “Balaiada de São Luís”, como ficou conhecida, a greve de 1951, foi o mais formidável movimento urbano da história do Maranhão. Representou movimento popular amplo, radical e heterogêneo que mobilizou a “massa urbana” revoltada com as práticas fraudulentas e coronelescas de Victorino Freire, cujas conseqüências foram marcantes. A greve de 1951 ocorreu num cenário de acirramento intra-oligárquico e girou em torno do poder exercido por Victorino Freire que havia corrompido o processo eleitoral garantindo a vitória de seu candidato, Eugênio Barros. O pano de fundo que ensejou a greve de 1951, foi a disputa dos grupos políticos pelo controle do Estado, numa época de ascensão de novas lideranças políticas no Maranhão, ameaçando o poder de Victorino Freire.
Uma dessas lideranças era de Saturnino Belo, ex interventor e vice-governador, até então, aliado de Victorino. Ele apresenta a sua candidatura às eleições de 1951, contra o candidato vitorinista. Saturnino Belo era candidato das classes empresariais, conseguiu aglutinar no pleito, as siglas: PSD, PR, PSP, PL, UDN e o PTB, formando uma grande aliança partidária, em torno de sua candidatura, além de compor as “Oposições Coligadas”. Foi um dos principais protagonistas da greve de 1951. no enstanto, desde 1950 tinha sido preterido pelo oligarca maior do Estado, quando, uniu-se às “Oposições Coligadas”.
Por outro lado, o candidato vitorinista ao cargo de governador do Maranhão era o ex-prefeito de Caxias Eugênio Barros, que disputou a eleição pelo Partido Social Trabalhista – PST. O pleito foi cercado de expectativas e de denúncias de fraudes. Estava em jogo o poder de Victorino Freire no Estado. Aberta as urnas, o candidato das “Oposições Coligadas”, Saturnino Belo, saiu na frente, principalmente em São Luís. Estava ameaçada a vitória do candidato da oligarquia. Victorino Freire preocupado com o quadro eleitoral desvantajoso entra em cena: conseguiu anular via TER, 31 seções eleitorais, algo em torno de 16.000 votos, o suficiente para garantir a ultrapassagem de Eugênio Barros sobre Saturnino Belo e “vencer” o pleito com uma margem mínima de 6.000 votos.
A declaração do resultado pelo TER, acirrou os ânimos. A população de São Luís reagiu de forma violenta à posse de Eugênio Barros. Passeatas foram organizadas; piquetes e discursos inflamados foram feitos em praça pública; jornais foram empastelados; casas de juízes foram depredadas; até mesmo o prédio do TER foi queimado pelos rebeldes. Os “soldados da liberdade” agora iam à forra contra o poder fraudulento. Assim, o povo radicalizou suas ações, influenciado pelos oposicionistas.
Dentre eles estava, Neiva Moreira, fluente jornalista, líder do movimento, acusado injustamente de incendiar vários bairros como Caratatiua, Goiabal e Cavaco, provocando o desabrigo de centenas de pessoas, levando-as ao desespero. Este líder da greve de 51, era chamado de “Caramuru: Deus do fogo”.
Durante o desfecho do movimento, como estratégia, os rebeldes fecharam o porto de São Luís, diminuindo a oferta de alimentos no Estado. São Luís ficou totalmente paralisada por uma greve geral nos meses de fevereiro e março e posteriormente setembro e outubro. A morte do candidato das “Oposições Coligadas”, Saturnino Belo, ampliou os conflitos. Seu funeral foi acompanhado por aproximadamente 40 mil pessoas o que equivalia a 33% da população da capital.
Os ânimos se alteraram e as posições de ambos os lados tornaram-se radicais. Através da violência, as forças militares tentavam calar a multidão incontida. O conflito foi inevitável: houve mortos e feridos em praça pública demonstrando o despreparo policial e o desespero da oligarquia em abafar o movimento. Nem a vinda do Ministro Negrão de Lima e de tropas federais a São Luís, arrefeceram os ânimos. O poeta Nauro Machado, testemunha ocular, assim narrou a violência estabelecida na greve de 51: “Mudo, antes o tiroteio comeu alto, roçou de ponta a ponta: a lei falou sua fala. Sim, a fala-força dos fuzis, das balas, não belas, amarelas. Bolos de mortos. Para se ir à morte não é preciso passaporte. Um quieto domina a Praça Dom Pedro II. Gente morrida matada, corpo sangrando, lares sem pais, filhos, tudo, a prostituição. As gentes estavam rebeladas: a corrupção, as velhas estruturas, o caciquismo e o sindicato da fraude. Universidade da fraude (A mão maquiavélica de Victorino. ‘Uma porca será eleita, até pro senado, se ele desejar’- diziam) assim chamaram”.
“- Escuta esta, fala baixo, dizem que foi muita gente enterrada viva, só com a perna quebrada, por exemplo, mas era ordem superior. Moradores dali de junto do cemitério de São Pantaleão contam que ouviam os gemidos, os apelos”. (MACHADO. In CABRAL: 2206, 02).
Em meio à crise, o deputado César Aboud, assume o cargo de governador até o julgamento do mérito pelo TSE. Apesar da forte reação popular, foi confirmado e diplomado o candidato vitorinista Eugênio Barros. Em conseqüência disso, houve uma ampla mobilização popular contra a posse de Eugênio Barros, o que possibilitou uma intervenção federal do governo Vargas, através do Ministro Negrão de Lima acompanhado de perto por populares numa atitude de pressão de denuncismo. A intervenção promoveu inclusive o controle militar da capital, que foi ocupada por tropas do Ceará, Piauí, Pará e aviões da FAB, sob o comando geral do general Edgardino, comandante da 10ª Região Militar, que em represália ao movimento, impôs as seguintes determinações:
1. “Permitir reuniões públicas somente das 8 às 10h e das 17 às 19h, exclusivamente na Praça João Lisboa.
2. Proibir agrupamentos fora da Praça João Lisboa.
3. Proibir porte de armas mesmo as licenciadas.
4. Considerar como condição de hostilidade o porte de cassetetes, canos, pedras e outros objetos que possam servir para depredação.
5. Considerar desacato às suas ordens a propagação de boatos tendenciosos ou pregação de desordens, motins ou violências contra pessoas ou propriedades.
6. Proibir aos militares da ativa o uso de trajes civis durante o período de prontidão da tropa”. (MOREIRA: 1190, 43)
A estratégia adotada pelas oposições era o acirramento do conflito, com o apoio das camadas populares urbanas. A greve de 1951 tinha o apoio de trabalhadores, estudantes, classe média, políticos e até empresários, parte expressiva da população da capital que votará no candidato de oposição. Desse modo, enquanto as “Oposições Coligadas” obtiveram em São Luís, 20 mil votos, couberam apenas 3 mil sufrágios a Eugênio Barros, candidato vitorinista. Nesse contexto, o movimento alcançara grande repercussão nacional e internacional, transformando-se numa campanha de libertação contra o jugo vitorinista: era a “Balaiada Urbana”. São Luís, passa então, a ser considerada a “Ilha Rebelde”, jargão que virou mito, bastante alardeado nas campanhas políticas da atualidade. Além de São Luís, houve atos de rebeldia em cidades como São João dos Patos, Coroatá e Grajaú.
É importante ressaltar, além da presença do trabalhador urbano, a grande contribuição das mulheres que tiveram participação expressiva no movimento, denunciando a fraude e coletando alimentos e dinheiro para minorar o sofrimento das vítimas dos incêndios, contribuindo inclusive, para garantir a permanência da população no processo de mobilização. O saldo mais triste da greve de 1951 foi o assassinato, pelas forças militares, de vários jovens sonhadores, dentre eles: João Moreno, João Evangelista de Sousa e José de Ribamar Prado, este último de apenas 17 anos.
Artigo extraído do livro "Conhecendo e Debatendo a História do Maranhão"
(Joan Botelho).
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
A substituição das ferramentas pelas máquinas, da energia humana pela energia motriz e do modo de produção doméstico pelo sistema fabril constituiu a Revolução Industrial; revolução, em função do enorme impacto sobre a estrutura da sociedade, num processo de transformação acompanhado por notável evolução tecnológica.
A Revolução Industrial aconteceu na Inglaterra na segunda metade do século XVIII e encerrou a transição entre feudalismo e capitalismo, a fase de acumulação primitiva de capitais e de preponderância do capital mercantil sobre a produção. Completou ainda o movimento da revolução burguesa iniciada na Inglaterra no século XVII.
Etapas da industrialização
Podem-se distinguir três períodos no processo de industrialização em escala mundial:
1760 a 1850 – A Revolução se restringe à Inglaterra, a "oficina do mundo". Preponderam a produção de bens de consumo, especialmente têxteis, e a energia a vapor.
1850 a 1900 – A Revolução espalha-se por Europa, América e Ásia: Bélgica, França, Ale¬manha, Estados Unidos, Itália, Japão, Rússia. Cresce a concorrência, a indústria de bens de produção se desenvolve, as ferrovias se expandem; surgem novas formas de energia, como a hidrelétrica e a derivada do petróleo. O trans¬porte também se revoluciona, com a invenção da locomotiva e do barco a vapor.
1900 até hoje – Surgem conglomerados industriais e multinacionais. A produção se automatiza; surge a produção em série; e explode a sociedade de consumo de massas, com a expansão dos meios de comunicação. Avançam a indústria química e eletrônica, a engenharia genética, a robótica
Artesanato, manufatura e maquinofatura
O artesanato, primeira forma de produção industrial, surgiu no fim da Idade Média com o renascimento comercial e urbano e definia-se pela produção independente; o produtor possuía os meios de produção: instalações, ferramentas e matéria-prima. Em casa, sozinho ou com a família, o artesão realizava todas as etapas da produção.
A manufatura resultou da ampliação do consumo, que levou o artesão a aumentar a produção e o comerciante a dedicar-se à produção industrial. O manufatureiro distribuía a matéria-prima e o arte¬são trabalhava em casa, recebendo pagamento combinado. Esse comerciante passou a produzir. Primeiro, contratou artesãos para dar acabamento aos tecidos; depois, tingir; e tecer; e finalmente fiar. Surgiram fábricas, com assalariados, sem controle sobre o produto de seu trabalho. A produtividade aumentou por causa da divisão social, isto é, cada trabalhador realizava uma etapa da produção.
Na maquinofatura, o trabalhador estava sub¬metido ao regime de funcionamento da máquina e à gerência direta do empresário. Foi nesta etapa que se consolidou a Revolução Industrial.
O pioneirismo inglês
Quatro elementos essenciais concorreram para a industrialização: capital, recursos naturais, mercado, transformação agrária.
Na base do processo, está a Revolução Inglesa do século XVII. Depois de vencer a monarquia, a burguesia conquistou os merca¬dos mundiais e transformou a estrutura agrária. Os ingleses avançaram sobre esses mercados por meios pacíficos ou militares. A hegemonia naval lhes dava o controle dos mares. Era o mercado que comandava o ritmo da produção, ao contrário do que aconteceria depois, nos países já industrializados, quando a produção criaria seu próprio mercado.
Até a segunda metade do século XVIII, a grande indústria inglesa era a tecelagem de lã. Mas a primeira a mecanizar-se foi a do algodão, feito com matéria-prima colonial (Estados Uni¬dos, Índia e Brasil). Tecido leve, ajustava-se aos mercados tropicais; 90% da produção ia para o exterior e isto representava metade de toda a exportação inglesa, portanto é possível perceber o papel determinante do mercado externo, principalmente colonial, na arrancada industrial da Inglaterra. As colônias contribuíam com matéria-prima, capitais e consumo.
Os capitais também vinham do tráfico de escravos e do comércio com metrópoles colonialistas, como Portugal. Provavelmente, metade do ouro brasileiro acabou no Banco da Inglaterra e financiou estradas, portos, canais. A disponibilidade de capital, associada a um sistema bancário eficiente, com mais de quatrocentos bancos em 1790, explica a baixa taxa de juros; isto é, havia dinheiro barato para os empresários.
Depois de capital, recursos naturais e merca¬do, vamos ao quarto elemento essencial à industrialização, a transformação na estrutura agrária após a Revolução Inglesa. Com a gentry no poder, dispararam os cercamentos, autorizados pelo Parlamento. A divisão das terras coletivas beneficiou os grandes proprietários. As terras dos camponeses, os yeomen, foram reunidas num só lugar e eram tão poucas que não lhes garantiam a sobrevivência: eles se transforma¬ram em proletários rurais; deixaram de ser ao mesmo tempo agricultores e artesãos.
Duas conseqüências se destacam: 1) diminuiu a oferta de trabalhadores na indústria doméstica rural, no momento em que ganhava impulso 0 mercado, tornando-se indispensável adotar nova forma de produção capaz de satisfazê-lo; 2) a proletarização abriu espaço para o investimento de capital na agricultura, do que resultaram a especialização da produção, o avanço técnico e o crescimento da produtividade.
A população cresceu, o mercado consumidor também; e sobrou mão-de-obra para os centros industriais.
Mecanização da Produção
As invenções não resultam de atos individuais ou do acaso, mas de problemas concretos coloca¬dos para homens práticos. O invento atende à necessidade social de um momento; do contrário, nasce morto. Da Vinci imaginou a máquina a vapor no século XVI, mas ela só teve aplicação no ,século XVIII.
Para alguns historiadores, a Revolução Industrial começa em 1733 com a invenção da lançadeira volante, por John Kay. O instrumento, adaptado aos teares manuais, aumentou a capacidade de tecer; até ali, o tecelão só podia fazer um tecido da largura de seus braços. A invenção provocou desequilíbrio, pois começa¬ram a faltar fios, produzidos na roca. Em 1767, James Hargreaves inventou a spinning jenny, que permitia ao artesão fiar de uma só vez até oitenta fios, mas eram finos e quebradiços. A water frame de Richard Arkwright, movida a água, era econômica mas produzia fios grossos. Em 1779, S Samuel Crompton combinou as duas máquinas numa só, a mule, conseguindo fios finos e resistentes. Mas agora sobravam fios, desequilíbrio corrigido em 1785, quando Edmond Cartwright inventou o tear mecânico.
Cada problema surgido exigia nova invenção. Para mover o tear mecânico, era necessária uma energia motriz mais constante que a hidráulica, à base de rodas d’água. James Watt, aperfeiçoando a máquina a vapor, chegou à máquina de movi¬mento duplo, com biela e manivela, que transformava o movimento linear do pistão em movimento circular, adaptando-se ao tear.
Para aumentar a resistência das máquinas, a madeira das peças foi substituída por metal, o que estimulou o avanço da siderurgia. Nos Esta¬dos Unidos, Eli Whitney inventou o descaroça¬dor de algodão.
Revolução Social
A Revolução Industrial concentrou os trabalhadores em fábricas. O aspecto mais importante, que trouxe radical transformação no caráter do trabalho, foi esta separação: de um lado, capital e meios de produção (instalações, máquinas, matéria-prima); de outro, o trabalho. Os operários passaram a assalariados dos capitalistas (donos do capital).
Uma das primeiras manifestações da Revolução foi o desenvolvimento urbano. Londres chegou ao milhão de habitantes em 1800. O progresso deslocou-se para o norte; centros como Manchester abrigavam massas de trabalhadores, em condições miseráveis. Os artesãos, acostumados a controlar o ritmo de seu trabalho, agora tinham de submeter-se à disciplina da fábrica. Passaram a sofrer a concorrência de mulheres e crianças. Na indústria têxtil do algodão, as mulheres formavam mais de metade da massa trabalhadora. Crianças começavam a trabalhar aos 6 anos de idade. Não havia garantia contra acidente nem indenização ou pagamento de dias para-dos neste caso.
A mecanização desqualificava o trabalho, o que tendia a reduzir o salário. Havia freqüentes paradas da produção, provocando desemprego. Nas novas condições, caíam os rendimentos, contribuindo para reduzir a média de vida. Uns se entregavam ao alcoolismo. Outros se rebelavam contra as máquinas e as fábricas, destruídas em Lancaster (1769) e em Lancashire (1779). Proprietários e governo organizaram uma defesa militar para proteger as empresas.
A situação difícil dos camponeses e artesãos, ainda por cima estimulados por idéias vindas da Revolução Francesa, levou as classes dominantes a criar a Lei Speenhamland, que garantia subsistência mínima ao homem incapaz de se sustentar por não ter trabalho. Um imposto pago por toda a comunidade custeava tais despesas.
Havia mais organização entre os trabalhadores especializados, como os penteadores de lã. Inicialmente, eles se cotizavam para pagar o enterro de associados; a associação passou a ter caráter reivindicatório. Assim surgiram as tradeunions, os sindicatos. Gradativamente, conquistaram a proibição do trabalho infantil, a limitação do trabalho feminino, o direito de greve.
Bibliografia:
História Geral - Aquino, Denize e Oscar - Ed. Ao Livro Técnico
Toda a História - José Jobson Arruda - Ed. Ática
História - Luiz Koshiba - Ed. Atual
A GUERRA DOS CEM ANOS
A Guerra dos Cem Anos foi um longo conflito que envolveu a Inglaterra e França entre os séculos 14 e 15, período marcado por transformações socioeconômicas e políticas, que caracterizaram a crise do sistema feudal.
O grande crescimento populacional e das cidades, assim como o movimento das Cruzadas, foi responsável pela reativação da produção e do comércio, e deu uma nova dinâmica às sociedades européias. Do ponto de vista político, os reis fortaleceram e centralizaram o poder, refletindo os novos interesses que se desenvolviam, relacionados à formação de uma camada de mercadores e a adaptação da nobreza e de seus interesses.
Para os mercadores, as estruturas feudais representavam um obstáculo ao desenvolvimento, uma vez que a autonomia de cada feudo permitia que houvesse uma variação muito grande moedas, leis, exércitos, sistema de pesos e de medidas, dificultando a circulação de mercadorias. Por isso os grupos mercantis e, em particular os habitantes dos burgos, tenderam a apoiar a centralização do poder real, com o intuito de unificar os mercados. Apesar de pouco numerosos e considerados como um grupo marginal, os burgueses formavam uma camada nascente que acumulava capitais e contribuía financeiramente para o rei armar seus exércitos.
A formação das nações
O processo de centralização política pode ser percebido desde o século 12, de forma sutil, na medida em que os reis exigiam que seus vassalos se subordinassem a seus tribunais.
A formação das Monarquias nacionais é normalmente apresentada como um processo linear, ou seja, um processo político onde, gradualmente o rei aumenta seu poder ao longo do tempo e, ao contrário, a nobreza e o clero perdem poder e espaço político. Apesar dos grandes interesses em jogo, a centralização do poder real encontrou peculiaridades em cada região européias ou em cada nação em formação.
Na Península Ibérica, a formação dos reinos está diretamente vinculada a Guerra de Reconquista e mescla interesses feudais e comerciais. O condado portucalense, que deu origem ao Reino de Portugal, era inicialmente, uma possessão feudal, fruto das alianças entre grandes nobres durante a guerra. A independência de Portugal frente à Castela por sua vez, representou a quebra da vassalagem devida até então.
Durante a Baixa Idade Média, a Inglaterra viveu um processo contraditório em relação à disputa política. No início do século 13 a nobreza inglesa impôs ao rei João Sem Terra a "Magna Carta", documento que estabeleceu limites ao poder real, principalmente em relação às questões jurídicas, tributárias e que envolvessem a guerra; desde 1215 o rei deveria consultar um "Conselho de Nobres" para tomar decisões sobre essas questões. Se por um lado o poder real ficou limitado, por outro foi reconhecido e legitimado, ao mesmo tempo em que possibilitou que as relações entre o rei e a nobreza se tornassem mais equilibradas, garantindo ao rei maior prestígio e subordinação por parte dos súditos, responsáveis por fornecer ao rei os recursos matérias necessários para as guerras. Nesse sentido os exércitos ingleses, formados pelos homens cedidos pelos grandes barões e comandados pelos mesmos, podiam ser considerados mais organizados e disciplinados. Gradualmente o poder real se fortaleceu.
Na França a situação era diferente, a centralização política aparentemente caminhava a passos largos, a vitória de Luis 8º sobre João Sem Terra e a política tributária centralizadora de Felipe, o belo, fizeram com que o poder real fosse reforçado.
Os Atritos
Vários fatores determinaram o aumento de hostilidades entre Inglaterra e França, num primeiro momento, interesses que envolviam os reis e importantes setores da nobreza. No século 12, o rei Henrique II da Inglaterra se casou com Leonor da Aquitânia e, segundo as tradições feudais, tornou-se vassalo do rei da França nos ducados da Guyenna e Gasconha. Desde então as relações entre os reis da Inglaterra e França foram marcadas por conflitos políticos e militares. No entanto, durante esse período não podemos pensar uma guerra entre nações ou países. Mesmo mais tarde, no século 15, durante o famoso episódio que envolveu Joana Dáarc, é muito difícil tratar de nação e portanto de nacionalismo. Os conflitos do período muitas vezes tiveram nobres ingleses aliados ao rei da França, em outras ocasiões a situação é inversa.
O próprio Henrique 2º foi vitima de uma conspiração que envolveu seus dois filhos, Ricardo, o coração de leão e João, sem terra, que para destronar o pai se aliaram ao rei da França Filipe Augusto. As disputas envolvendo os dois reinos pelo trono da Inglaterra também servem para demonstrar que a luta pelo poder não tem nacionalidade. A rebelião dos barões ingleses em 1215que deu origem a Magna Carta atesta essa situação mais uma vez. Os ingleses perderam suas possessões em França.
Outro ponto de atrito entre as duas monarquias era a região de Flandres, rido entreposto comercial, situado a nordeste da França, a qual estava subordinado politicamente. Além do intenso comércio estabelecido na região, Flandres era importante centro produtor de tecidos, que consumia grande parte da lã produzida pela Inglaterra. Essa camada urbana vinculada à produção de tecidos e ao comércio posicionava-se a favor dos interesses ingleses e portanto, contra a ingerência política francesa na região.
No entanto, a situação tornou-se verdadeiramente crítica quando o Conde de Nevers, regente de Flandres desde 1322, prestou juramento de obediência ao seu suserano Filipe de Valois, decisão que poderia paralisar a economia flamenga, pois, com a morte do terceiro e último filho de Filipe IV, o Belo (Carlos IV, 1328), o trono da França passou para um de seus sobrinhos, justamente Filipe de Valois, que adotou o nome de Filipe VI (1328 a 1350). Instigado por Jacques Artervelde, rico mercador que já havia liderado uma rebelião na cidade flamenga de Gand, o rei da Inglaterra Eduardo III (1327 a 1377) reclamou para si a coroa francesa, alegando sua condição de neto (pelo lado materno) de Filipe, o Belo.
A Guerra
Os franceses acusavam os ingleses de desenvolverem uma política expansionista, percebida pelos interesses na Guyenne e em Flandres. Já os ingleses insistiam em seus legítimos direitos políticos e territoriais na França.
Em 1337 Felipe VI, de Valois, rei da França, atacou a Guyenne iniciando o conflito que duraria décadas e diversas gerações. Além disso exerceu intenso assédio ao litoral inglês durante meses, até ser derrotado em 1340.
Durante o reinado desses dois reis, as Batalhas de Crécy e de Calais, em 1346 e 1347 respectivamente, foram as mais importantes, ambas com vitórias inglesas, que garantiram a Eduardo III importantes posições no norte do país, mantendo o Canal da Mancha sob seu controle. Para tanto o rei da Inglaterra contou com o apoio financeiro de grandes mercadores de Flandres e do duque da Bretanha, que voltou-se contra o monarca francês. O avanço e a conquista inglesa só não forma maiores porque os dois países, como a maior parte da Europa, estavam sendo duramente atingidos pela peste negra, que foi responsável por interromper a guerra.
O período seguinte da guerra foi comandado por Eduardo IV da Inglaterra, conhecido como "o príncipe negro" (por conta da cor de sua armadura), e por João II, conhecido como "o bom", que sucedera ao pai no comando do reino francês. Esse período foi caracterizado por sucessivas vitórias inglesas, contando com o apoio de muitos nobres locais, mais preocupados em preservar seus domínios do que com a lealdade devida ao rei da França, possibilitando o domínio de cerca de um terço do território francês nas regiões norte e oeste, Em 1356, quando da batalha de Poitiers, o rei João II foi capturado e levado como prisioneiro para a Inglaterra, onde morreria oito anos depois, momento que representou o ápice das conquistas inglesas e, pelo contrário, o momento mais delicado para a França na guerra, forçando-a a assinar o Tratado de Brétigny (1360) que reconhecia o domínio inglês sobre as regiões conquistadas e devolvia os territórios tomados no início do conflito.
Após a morte de João II, o bom, o reino francês foi comandado por seu filho, Carlos V que enfrentou sucessivas revoltas camponesas, as mais famosas conhecidas como "Jacqueries", e também urbanas. O rei não reconheceu os acordos anteriores e de 1360 a 1380 obteve vitórias significativas sobre os ingleses retomando grande parte do território perdido. As vitórias desse rei, fruto da reorganização militar, fortaleceram a idéia de centralização política, possibilitou submeter a maior parte da nobreza, aumentar a arrecadação tributária e organizar o Estado com elementos oriundos da burguesia em cargos de confiança.
As últimas décadas do século 14 e as décadas iniciais do século seguinte foram marcadas pelas disputas internas nos dois países, arrefecendo momentaneamente a guerra externa. No caso da Inglaterra ocorreram rebeliões camponesas lideradas por Wat Tyler, contra a servidão e posteriormente as disputas envolveram parte da nobreza, que lutou contra o rei, e culminou com a ascensão de Henrique de Lancaster ao trono em 1399, com o título de Henrique IV. Na França as lutas internas foram mais complexas e envolveram os interesses da região da Borgonha, antigo feudo poderoso, que lutou constantemente por seus interesses particulares. Em Considerando Carlos VI como incapaz, os Borguinhões pretenderam tomar o poder e aliaram-se aos ingleses. Ao lado da família real ficaram o irmão do rei, Luis de Orléans e Bernardo de Armagnac. Nesta guerra civil, destacaram-se João sem medo de Borgonha e o Delfim Carlos, que mesmo deserdado pelo pai manteve a liderança das tropas francesas contra os ingleses e mais tarde assumiria o trono como Carlos VII (1422).
Os conflitos forma retomados desde 1413 por Henrique V, que sucedera o pai e procurou se aproveitar da guerra interna à França. A Batalha de Azincourt em 1415 representa o grande momento da nova ascensão inglesa que, vitoriosa, impôs o Tratado de Troyes, em 1420, aos franceses, que garantia a Inglaterra todo o norte do país, inclusive Paris e, o mais grave, destituía o Delfim Carlos, colocando-se Henrique V da Inglaterra como sucessor do trono francês. Para consolidar tal acordo, Henrique casou-se com Catarina, filha do rei Carlos VI, e portanto irmã do Delfim.
Em 1422 os reis dos dois países morreram. Henrique V da Inglaterra e Carlos VI da França. Oficialmente o trono era herdado por Henrique VI, criança recém nascida, enquanto o Delfim Carlos viria a ser coroado apenas em 1429, em Reims, num momento onde a guerra tomou novo rumo, em grande parte atribuído a figura de Joana Dáarc, camponesa que liderou tropas do sul da França em apoio ao rei.
A figura de Joana Dáarc tornou-se um mito e ainda hoje e tratada dessa maneira pela historiografia predominante. Destaca-se o aspecto religioso nesse processo de mitificação, tanto pelo fato de "ter tido visões" que a levaram a participar da guerra, ou ainda pelo fato de ser transformada em "heroína nacional", numa época em que é praticamente impossível falar em nacionalismo


